Denúncia sobre verbas da hemodiálise coloca Adeildo sob investigação criminal e por improbidade

MPF encaminha possível crime de responsabilidade para análise da Procuradoria Regional da República (PGR) e instaura procedimento preparatório para apurar suspeita de improbidade administrativa envolvendo recursos federais da saúde.

Por Eduardo Rodrigues
7 Min
Denúncia sobre verbas da hemodiálise coloca Adeildo sob investigação criminal e por improbidade
Foto: Gerada por IA

O que começou como uma denúncia apresentada na Câmara Municipal de Campo Limpo Paulista – SP sobre o destino de recursos federais destinados ao tratamento de pacientes renais crônicos evoluiu para uma investigação formal no Ministério Público Federal (MPF) e passou a produzir consequências que ultrapassam o debate político local.

Documentos obtidos pelo Popular Mais mostram que o MPF decidiu dar andamento à representação protocolada pelos vereadores Leandro Bizetto (PSDB), Adriano Benedetti (PSDB) e Tonico (União Brasil) contra o prefeito Adeildo Nogueira (PL), relacionada à movimentação de recursos federais vinculados aos serviços de hemodiálise.

Segundo os documentos encaminhados ao Ministério Público Federal, a denúncia envolve o lançamento de um empenho, liquidação e pagamento no valor de R$ 1.240.752,13 referente a verbas federais destinadas ao custeio de procedimentos de nefrologia no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

A representação sustenta que os recursos deveriam ser destinados à clínica CLINEFRAN, responsável pelos atendimentos de hemodiálise no município, mas apareceram vinculados, no Portal da Transparência da Prefeitura, à empresa Jean Paulo & Michell Produções Artísticas Ltda., cujo CNPJ consta como baixado na Receita Federal desde 2015.

Após analisar os elementos apresentados, o procurador da República Fausto Kozo Matsumoto Kosaka concluiu que os fatos narrados podem, em tese, caracterizar crimes de responsabilidade previstos no Decreto-Lei 201/67 e determinou a remessa do caso à Procuradoria Regional da República da 3ª Região, órgão com atribuição para analisar eventual responsabilidade criminal de prefeitos municipais.

A decisão representa um avanço significativo da denúncia, uma vez que o caso deixa de se restringir ao debate político travado na Câmara Municipal e passa a ser analisado por órgãos federais de controle e fiscalização.

O que diz a denúncia

De acordo com a representação encaminhada pelos vereadores, a Prefeitura de Campo Limpo Paulista mantém convênio com o Governo Federal, por meio do Fundo Nacional de Saúde (FNS), para o custeio de procedimentos de alta complexidade em nefrologia.

A denúncia sustenta que os recursos federais possuem destinação específica e vinculada ao tratamento de pacientes renais crônicos dependentes de diálise.

Os documentos apresentados ao MPF apontam que o empenho nº 002332, emitido em 25 de maio de 2026 e pago em 29 de maio de 2026, no valor de R$ 1.240.752,13, teria sido registrado no Portal da Transparência com indicação da empresa Jean Paulo & Michell Produções Artísticas Ltda. como beneficiária.

A repercussão do caso levou integrantes do governo municipal a sustentarem que o lançamento seria resultado de um erro material de digitação e que a operação real teria sido destinada ao Consórcio Intermunicipal CISMETRO.

Mesmo diante dessa justificativa, os vereadores argumentaram ao MPF que permanecia a necessidade de apuração sobre a correta aplicação dos recursos federais, considerando a natureza vinculada da verba destinada à nefrologia.

MPF abre duas frentes de apuração

Os documentos mostram que o Ministério Público Federal adotou duas providências distintas.

A primeira foi o encaminhamento da notícia de fato à Procuradoria Regional da República da 3ª Região para análise de possíveis infrações penais atribuídas ao prefeito municipal.

A segunda foi a instauração de um procedimento preparatório destinado à apuração de eventual ato de improbidade administrativa relacionado ao caso.

Na portaria assinada em 18 de junho de 2026, o procurador destaca a necessidade de reunir informações e documentos complementares capazes de subsidiar eventual instauração de inquérito civil ou adoção de outras medidas cabíveis.

Como parte dessa apuração, o MPF determinou o envio de ofício à Prefeitura de Campo Limpo Paulista requisitando uma extensa documentação relacionada à movimentação dos recursos federais.

Entre os documentos solicitados estão cópias dos empenhos, comprovantes de liquidação e pagamento, notas fiscais, demonstrativos de despesas, extratos bancários das contas pelas quais transitaram os recursos federais e documentos relativos aos repasses efetuados à CLINEFRAN.

A requisição demonstra que a investigação passa a se concentrar na documentação oficial relacionada à origem, movimentação e destinação final dos recursos públicos questionados.

Vereador afirma que valores podem chegar a R$ 5 milhões

Durante a sessão da Câmara Municipal realizada nesta terça-feira (23), o vereador Leandro Bizetto afirmou que novas análises dos registros públicos identificaram outras movimentações semelhantes envolvendo recursos federais destinados à nefrologia.

Segundo o parlamentar, os valores inicialmente questionados deixariam de se limitar aos R$ 1,24 milhão apontados na denúncia original e poderiam alcançar aproximadamente R$ 5 milhões.

Bizetto anunciou que a documentação complementar será encaminhada ao procedimento já instaurado pelo Ministério Público Federal.

Caso os novos elementos sejam incorporados à investigação, o alcance da apuração poderá ser ampliado.

O que está em jogo para o prefeito

O despacho do Ministério Público Federal menciona dispositivos do Decreto-Lei 201/67, legislação que trata dos crimes de responsabilidade dos prefeitos municipais.

Entre as hipóteses previstas na norma estão a apropriação de bens ou rendas públicas, a utilização indevida de recursos públicos, o desvio de verbas e a aplicação de recursos em desacordo com sua finalidade legal.

A simples citação desses dispositivos não representa condenação nem conclusão antecipada das investigações.

No entanto, caso as irregularidades apontadas venham a ser comprovadas ao longo da apuração, as consequências podem alcançar as esferas criminal, civil e administrativa.

Na esfera criminal, eventual responsabilização dependerá da análise dos órgãos competentes e de decisão judicial.

Na esfera cível, a investigação por improbidade administrativa poderá resultar, caso haja condenação, na aplicação das sanções previstas em lei, incluindo perda da função pública, suspensão dos direitos políticos, pagamento de multas e outras penalidades definidas pelo Poder Judiciário.

Por essa razão, o caso passou a representar não apenas um problema político para a administração municipal, mas também uma questão jurídica com potencial impacto sobre o futuro do mandato do prefeito.

Transparência no centro da discussão

Além da destinação dos recursos federais, a controvérsia trouxe para o centro do debate a confiabilidade das informações divulgadas pelo Portal da Transparência da Prefeitura.

A denúncia apresentada pelos vereadores teve origem em dados disponibilizados pelo próprio sistema oficial do município.

Posteriormente, integrantes do governo sustentaram que os registros não refletiam corretamente a operação realizada, atribuindo a situação a um erro material de lançamento.

Independentemente das conclusões das investigações, permanece a necessidade de esclarecimento sobre como uma movimentação superior a R$ 1,2 milhão em recursos federais destinados à saúde pôde gerar tamanha divergência entre os registros públicos disponibilizados à população e a versão posteriormente apresentada pela administração municipal.

Quando o assunto envolve recursos públicos destinados ao tratamento de pacientes que dependem da hemodiálise para sobreviver, a transparência deixa de ser apenas um princípio administrativo e se torna uma obrigação legal.

Agora, os esclarecimentos são cobrados não apenas por vereadores e pela imprensa, mas também pelo Ministério Público Federal.


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