Quando o marketing substitui a gestão, a cidade paga a conta

Campo Limpo Paulista – SP perdeu a nota máxima do Tesouro Nacional justamente no primeiro ano da atual administração. O problema não é apenas uma letra. É o que ela revela sobre as prioridades de quem governa.

Por Eduardo Rodrigues
6 Min
Quando o marketing substitui a gestão, a cidade paga a conta
Foto: Gerada por IA

Há uma diferença fundamental entre administrar uma cidade e administrar uma imagem. A primeira tarefa exige planejamento, responsabilidade fiscal, capacidade de definir prioridades e disposição para enfrentar problemas complexos. A segunda depende de uma boa estratégia de comunicação, presença constante nas redes sociais e habilidade para construir narrativas.

Quando essas duas atividades caminham juntas, a população ganha. Mas, quando a comunicação começa a ocupar o espaço da administração, cedo ou tarde a realidade aparece. E ela costuma ser bem menos generosa do que os discursos.

Foi exatamente isso que aconteceu com Campo Limpo Paulista – SP.

Enquanto a população acompanhava as tradicionais lives semanais da Prefeitura, o Tesouro Nacional fazia um trabalho muito menos visível, porém muito mais importante: analisar a saúde financeira do município. O resultado dessa avaliação mostrou que a cidade caiu da nota A, registrada em 2023 e 2024, para nota C na Capacidade de Pagamento (CAPAG), classificação referente ao exercício de 2025, primeiro ano da gestão do prefeito Adeildo Nogueira (PL).

Pode parecer um detalhe técnico, daqueles que normalmente passam despercebidos pela maioria da população. Não é.

A CAPAG é um dos principais instrumentos utilizados pelo Tesouro Nacional para medir a qualidade da gestão fiscal de estados e municípios. É ela que demonstra se uma prefeitura possui condições de assumir financiamentos com garantia da União, mecanismo frequentemente utilizado para viabilizar grandes investimentos em infraestrutura, mobilidade, drenagem, pavimentação, construção de escolas, unidades de saúde e tantas outras obras que dificilmente seriam realizadas apenas com recursos próprios.

Em outras palavras, uma boa classificação fiscal amplia as possibilidades de investimento. Uma classificação pior reduz essas possibilidades e lança dúvidas sobre a capacidade financeira da administração.

Os próprios números ajudam a explicar o rebaixamento. Campo Limpo Paulista manteve nota A apenas no indicador de endividamento, mas recebeu nota C nos indicadores de Poupança Corrente e Liquidez Relativa, suficientes para derrubar a classificação final do município.

Nenhum desses indicadores surge por acaso. Eles são resultado da forma como as contas públicas são administradas ao longo do tempo. Refletem o equilíbrio entre receitas e despesas, a capacidade de gerar poupança e a situação do caixa municipal. Não são opiniões, interpretações políticas ou versões apresentadas por governo ou oposição. São indicadores técnicos produzidos a partir dos dados oficiais da própria Prefeitura.

É justamente por isso que eles merecem atenção.

Ao longo do primeiro ano de mandato, a atual administração investiu fortemente em comunicação. As lives das quintas-feiras tornaram-se uma marca do governo. Em muitas delas, o prefeito respondeu críticas, rebateu adversários, comentou decisões da Câmara e procurou apresentar sua versão dos fatos.

Nada disso é, por si só, um problema. Um gestor público tem o dever de prestar contas à população e utilizar os canais disponíveis para manter o cidadão informado.

O problema começa quando a comunicação passa a produzir mais protagonismo do que a própria gestão.

Porque uma live pode convencer pessoas. Pode mobilizar apoiadores. Pode gerar curtidas, compartilhamentos e comentários. Mas ela não melhora indicadores fiscais, não reorganiza as contas públicas, não fortalece a capacidade financeira do município nem amplia sua credibilidade perante os órgãos responsáveis por avaliar a saúde econômica das administrações públicas.

Esses resultados continuam dependendo de algo muito menos espetacular do que uma transmissão ao vivo: gestão.

É importante reconhecer que a situação financeira de uma prefeitura não nasce em um único ano nem pode ser atribuída exclusivamente a uma única decisão. A saúde fiscal de qualquer município é construída ao longo do tempo e sofre influência de diversos fatores econômicos, administrativos e legais.

Mas existe um fato que não admite discussão.

O exercício de 2025 já pertence integralmente à atual administração.

E foi justamente nesse exercício que Campo Limpo Paulista deixou de ostentar a nota máxima do Tesouro Nacional e passou a receber uma classificação significativamente inferior.

Esse resultado deveria provocar uma reflexão séria dentro do governo municipal.

Talvez tenha chegado a hora de dedicar menos energia aos embates políticos permanentes e mais atenção aos indicadores que realmente definem a qualidade de uma administração. Porque o cidadão pode até assistir a uma live durante uma hora. Mas ele convive com as consequências da gestão todos os dias, quando enfrenta problemas na saúde, no transporte, na infraestrutura ou quando vê a cidade perder capacidade de investir no próprio futuro.

Existe uma frase muito repetida na política segundo a qual “a percepção também é realidade”6+. Talvez isso funcione em campanhas eleitorais.

Na administração pública, porém, a realidade costuma ser bem menos subjetiva.

Ela aparece nos balanços.

Nos relatórios.

Nos pareceres técnicos.

E, neste caso, apareceu na avaliação do próprio Tesouro Nacional.

As redes sociais permitem editar vídeos, escolher enquadramentos, controlar o roteiro e até silenciar comentários inconvenientes.

Os indicadores fiscais não oferecem esse privilégio.

Eles apenas registram o resultado da gestão.

E o resultado registrado para Campo Limpo Paulista é um alerta que nenhum administrador deveria tratar como um simples detalhe burocrático. Afinal, a cidade não perdeu apenas uma letra em um relatório oficial. Perdeu parte da credibilidade fiscal construída nos anos anteriores, justamente em um momento em que mais precisa de capacidade para investir, crescer e oferecer respostas concretas à população.

No fim das contas, a política pode até sobreviver de discursos.

Mas uma cidade continua dependendo, como sempre dependeu, de boa administração.

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