Lula reage a Trump em jornal dos EUA e diz: “O Brasil não será derrotado por mentiras”

Em artigo publicado no Washington Post, presidente acusa Donald Trump de usar tarifas por interesse político, defende a soberania brasileira, o Pix e afirma que o país não aceitará interferência externa.

Por Redação
9 Min
Lula reage a Trump em jornal dos EUA e diz: “O Brasil não será derrotado por mentiras”
Foto: Ricardo Stuckert/PR

A disputa entre Brasil e Estados Unidos ganhou um novo capítulo neste domingo (26). Em um artigo publicado no tradicional jornal norte-americano The Washington Post, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) respondeu diretamente às novas tarifas impostas pelo governo de Donald Trump e afirmou que o Brasil não aceitará pressão política nem interferência em seus assuntos internos.

O texto é um dos posicionamentos internacionais mais duros do presidente desde o início da crise comercial entre os dois países. Lula sustenta que o chamado "tarifaço" não tem motivação econômica, mas sim política e eleitoral.

Logo na abertura do artigo, o presidente deixa claro o recado:

“O destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa, nem subserviência”.

A publicação ocorre em meio ao aumento da tensão diplomática. No sábado (25), o Itamaraty anunciou a negativa de visto para dois integrantes do Departamento de Estado dos Estados Unidos, depois da divulgação de que a missão deles buscaria questionar a credibilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Lula diz que tarifas ignoram negociações

No artigo, Lula lembra que o governo brasileiro realizou dezenas de reuniões com autoridades norte-americanas para tentar evitar a escalada das tarifas e afirma que entregou pessoalmente documentos técnicos a Donald Trump.

Mesmo assim, segundo o presidente, os Estados Unidos decidiram elevar as taxas sobre produtos brasileiros, que agora variam entre 12,5% e 37,5%.

Com isso, de acordo com levantamento da organização suíça Global Trade Alert citado por Lula, Brasil e Turquia passaram a ser os segundos países mais tarifados pelos Estados Unidos, atrás apenas da China.

“Erro estratégico”

Para Lula, a decisão da Casa Branca acabará prejudicando os próprios norte-americanos.

Segundo ele, diversos setores da indústria dos Estados Unidos dependem de matérias-primas e produtos brasileiros. Com as novas tarifas, alimentos, calçados, autopeças, móveis, têxteis e outros itens tendem a chegar mais caros aos consumidores norte-americanos.

O presidente também afirma que, diante desse cenário, empresas brasileiras deverão ampliar relações comerciais com outros mercados, reduzindo a dependência dos Estados Unidos.

Defesa do Pix e das regras brasileiras

Outro ponto de destaque do artigo é a defesa das políticas públicas brasileiras que vêm sendo criticadas por integrantes do governo Trump.

Lula rebateu as acusações envolvendo o Pix e a regulação das plataformas digitais.

Segundo o presidente, o sistema brasileiro de pagamentos é uma referência internacional e não discrimina empresas norte-americanas.

Ele também afirmou que liberdade de expressão não pode servir como justificativa para práticas criminosas nas redes sociais e que o Brasil continuará protegendo crianças, famílias e a democracia diante dos interesses das grandes empresas de tecnologia.

Lula ainda destacou que o governo retomou o combate ao desmatamento ilegal e aos crimes ambientais desde o início de seu terceiro mandato.

Defesa da soberania

Na parte final do artigo, Lula critica tentativas de utilizar a relação entre Brasil e Estados Unidos para objetivos políticos e eleitorais.

O presidente afirma que o Brasil continuará disposto ao diálogo, mas deixa claro que a soberania nacional não está em negociação.

“Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras”, escreveu.

Ao encerrar o texto, Lula reforça que o Brasil mantém relações com todos os países que respeitem sua independência e que a reciprocidade continuará sendo a base das relações internacionais brasileiras.

O artigo reforça a estratégia adotada pelo governo federal de responder publicamente às medidas anunciadas por Donald Trump, defendendo a soberania nacional, o comércio internacional e a autonomia do Brasil diante das pressões externas.

Leia a íntegra do artigo do presidente Lula:

As tarifas dos EUA contra o Brasil são um erro estratégico

Há um ano, fui surpreendido pela publicação, em uma plataforma digital, de carta do Presidente Donald Trump que impunha tarifa de 50% a produtos brasileiros. A menção, logo no primeiro parágrafo, ao ex-presidente Jair Bolsonaro – condenado no ano passado e hoje preso por tentativa de golpe de Estado no Brasil – deixava explícita a motivação política da medida.

Nos diálogos que mantive com Trump desde então ressaltei que não é necessário compartilhar as mesmas visões de mundo para buscar relação mutuamente benéfica entre nossos países. Afinal, somos líderes das duas maiores democracias e economias das Américas.

Negociações entre nós e decisões da Suprema Corte dos EUA desmontaram a primeira versão do tarifaço. Mas este mês, desconsiderando dezenas de reuniões entre nossas equipes, sólidos argumentos técnicos e documentos que entreguei pessoalmente ao próprio Trump, o governo norte-americano decidiu adotar novas tarifas contra o Brasil que vão de 12,5% a 37,5%.

Como resultado, a Global Trade Alert, organização independente baseada na Suíça, estima que o Brasil e a Turquia são hoje os segundos países mais tarifados pelos Estados Unidos, depois apenas da China. E isso apesar do superávit norte-americano no comércio bilateral de bens e serviços, que ao longo de quinze anos consecutivos acumula 428 bilhões de dólares.

Além de injustas, as novas tarifas são um erro estratégico: elas prejudicam a economia dos Estados Unidos e a parceria com o Brasil. Diversos segmentos industriais dos Estados Unidos dependem de insumos brasileiros. Alimentos, calçados, têxteis, móveis, autopeças e vários outros produtos chegarão mais caros ao consumidor norte-americano.

As exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram para o menor patamar desde 1997. Na comparação entre os primeiros 6 meses de 2025 e 2026, o comércio bilateral com os EUA recuou 12,8%, enquanto o comércio com a União Europeia cresceu 6,1% e com a China aumentou 15,9%.

No médio prazo, essas tarifas vão levar à desorganização de cadeias produtivas que hoje se encontram densamente integradas e as empresas brasileiras vão substituir fornecedores norte-americanos por outros parceiros.

Isso diz muito da inconsistência entre os interesses dos EUA anunciados em sua estratégia de segurança nacional e as políticas que adota em relação ao Hemisfério Ocidental.

A América Latina e o Caribe não precisam de porta-aviões rondando suas águas nem de punições tarifárias. O que nos falta são parceiros confiáveis e previsíveis. Neste momento em que os EUA isolam seu mercado, outros países se apresentam como alternativas, oferecendo uma agenda positiva, capaz de fomentar o desenvolvimento econômico e social.

Estou convicto de que a união de esforços em torno de iniciativas concretas de investimento, comércio e combate ao crime organizado é o caminho a seguir para superar as mazelas que afligem um hemisfério que é de todos nós.

A divisão do mundo em zonas de influência e investidas neocoloniais por recursos estratégicos constituem gestos anacrônicos e retrocessos.

Apesar da longa história de intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na América Latina e no Caribe, houve momentos em que Washington soube ser um parceiro à altura de nossos interesses de desenvolvimento.

O Presidente Franklin D. Roosevelt implementou uma política de Boa Vizinhança que tinha como objetivo substituir o uso da força pela diplomacia em sua política externa para a região. Essa postura contribuiu de forma decisiva com os primórdios da industrialização no Brasil. O presidente George W. Bush, ao enfrentar a crise financeira de 2008, incluiu 3 países latino-americanos na primeira reunião de líderes do G20.

Para o Brasil, a única guerra que precisamos travar nesta parte do mundo é contra a fome, a pobreza e a desigualdade. E as únicas armas a empregar são as dos investimentos, da transferência de tecnologia e do comércio justo e equilibrado.

Tentativas de impor amarras ideológicas à parceria bilateral, ou de instrumentalizá-la para fins eleitorais, não se sustentam. Nunca antes um secretário de Estado norte-americano havia qualificado o Brasil como um país não-amigo. Ninguém vai nos derrotar com base em mentiras.

As alegações do Presidente Trump contra o Brasil, na tentativa de justificar as tarifas, são infundadas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade nas plataformas de redes digitais – não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. Nosso sistema de pagamentos, o Pix, não discrimina empresas norte-americanas e é uma referência internacional de infraestrutura pública digital. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.

Respeitamos a soberania de outros Estados e negociamos com todos aqueles que saibam respeitar a nossa. A reciprocidade é a base de toda relação entre nações e temos mecanismos apropriados para assegurá-la.

Estamos prontos a continuar dialogando de maneira aberta e construtiva, como o relacionamento entre dois países como o Brasil e os Estados Unidos requer. Mas o destino do Brasil compete apenas aos brasileiros, sem interferência externa, nem subserviência.

Presidente Luiz Inácio Lula da Silva

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