15/12/2021 às 02h00min - Atualizada em 15/12/2021 às 01h57min

Na falta d’água, nunca deixe faltar a comunicação

Estratégia usada pelo Brasil, em meio ao apagão elétrico, é uma boa medida para o atual momento.

David Silva

David Silva

É Estrategista de Marketing e fala sobre Neuromarketing, Comunicação , Inovação e Planejamento.

David Silva
Momentos de caos, instabilidade e incertezas são características das crises sociais, situações em que de repente tudo parece ter saído do lugar, e as causas de uma hora para outra deixam de produzir os efeitos esperados.  Atuando por quase uma década como secretário municipal e depois como consultor na área pública, tive a oportunidade de integrar por algumas vezes, comitês de gerenciamento de crise, como o que teve de lidar com o desabastecimento causado pela greve dos caminhoneiros e o que lidou com o desabastecimento hídrico repentino de metade do munícipio, após o rompimento de uma adutora no natal de 2017.
 
Em todas essas e em outras crises, o aspecto preponderante é o uso e os efeitos da comunicação, que se mal empregada, pode agravar o impacto da crise. Essa é uma questão que exige um olhar atento dos gestores públicos em todo o Brasil, especialmente neste momento em que inúmeras cidades do estado de São Paulo se preparam para pôr em prática medidas de racionamento no abastecimento de água. Entre as cidades impactadas pelo período de estiagem, temos o município de Campo Limpo Paulista e Várzea Paulista, ambos abastecidos pela SABESP (Companhia de Saneamento do Estado de São Paulo), onde se assiste o anúncio intempestivo de um rodízio, o que infelizmente tende a gerar um aumento no consumo, acentuando a gravidade da crise ao invés de mitigá-la.
 
Sobre esses feitos, vale lembrar que pesquisas científicas já comprovaram que a maioria das pessoas apresentam dificuldades em lidar com o impacto futuro das decisões que tomam. Dessa forma, apelar para a sua  capacidade analítica, em meio a uma crise, é uma aposta bastante arriscada.
 
O homem é na maior parte do tempo, movido por seus interesses particulares, e pelo agora. As pessoas se fartam de comer, mesmo sabendo que no futuro, o alimento em excesso tende a entupir seus vasos e artérias; se escondem das atividades físicas mesmo sabendo que sua falta pode encurtar o bem mais precioso que possuem e; gastam muito mais do que ganham, sem se importar sobre o quanto esse comportamento pode dificultar o objetivo de uma velhice tranquila.
 
Quando percebem riscos, os seres humanos tendem a sentir medo , e com isso, ativam os famosos mecanismos de luta, fuga e paralisação , é quando uma área do cérebro chamada amígdala assume o controle. Nesses casos, ao invés de economizar recursos, elas passam a estocá-los e, muitas vezes, chegam a esbanjá-los, numa tentativa mal pensada de antecipar  benefícios num cenário de escassez futura.
 
Nesse contexto, mais do que nunca, as pessoas se sentem dispostas a se submeterem à orientação de seus líderes, e é importante que eles saibam exatamente qual o efeito que desejam causar na população, para só a partir daí, usar todo o seu potencial comunicativo. O ideal, antes de mais nada, é fazer com que o comportamento desejado se torne vantajoso para o indivíduo e que esse ganho possa ser obtido imediatamente. Levando o comportamento das pessoas afetadas e os objetivos almejados em consideração, a gestão de crise tem maiores chances de ser bem sucedida.
 
Ressalta-se ainda, a importância em analisar e aprender com as crises já vivenciadas ao longo do tempo. Quem já passou dos 30 anos, há de se lembrar do apagão, vivido pelo Brasil no início dos anos 2000, que exigiu a adoção do ousado plano de incentivos econômicos, para metas de economia de energia elétrica, o que evitou o colapso do abastecimento naquela época.
 
Imagine se recorrêssemos a esse exemplo bem sucedido e ao invés de anunciar o racionamento geral e irrestrito, cancelássemos o racionamento para os bairros que economizassem 50% no seu consumo habitual ?  Ou se fosse anunciada a isenção de pagamento de tarifa para o morador que economizasse este mesmo percentual em relação ao consumo habitual?
 
As incertezas de uma crise podem ser o suficiente para fazer com que ela se prolongue por ainda mais tempo, daí a importância de buscar com cuidado as medidas corretas, a fim de se evitar o mergulho no completo caos. Nesse sentido, ressalta-se a importância de primeiro identificar os efeitos desejados, mensurar os riscos, definir uma meta e só então, como orientado pelo professor Vicente Falconi na época do apagão elétrico, partirmos para a ação.
 
Lidar com este tipo de situação não é fácil nem simples, mas o uso de referenciais teóricos para a tomada de decisões bem como a adoção de práticas de gestão de crise já testadas e aprovadas, podem diminuir bastante a gravidade das sequelas que costumam acompanhar crises como as que estamos vivendo.
Link
Leia Também »
Comentários »
;
Fale pelo Whatsapp
Atendimento
Precisa de ajuda? fale conosco pelo Whatsapp